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segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Cultura do Ponto de Vista Antropológico


Laplantine, Laraia e Geertz - Antropologia e Cultura

RESUMO:

A partir da leitura e análise das obras de Geertz, Laplatine e Laraia, procurar-se-á entender o processo de constituição e consolidação da antropologia moderna, tendo como ponto referencial de análise o conceito de cultura, entendido enquanto seu principal objeto de estudo.

DESENVOLVIMENTO:

Mesmo que de maneira inconsciente, o homem sempre procurou refletir sobre a sua humanidade, reflexão esta que se acelerou a partir do momento em que esta mesma humanidade, entenda-se aqui a Europa Ocidental, se deparou com a alteridade. Este "choque" num primeiro momento, não propiciou o alargamento da visão humana, mas pelo contrário criou condições propícias para o desenvolvimento de uma concepção etnocêntrica, como bem revela a citação seguinte,
"Se oferecêssemos aos homens a escolha de todos os costumes do mundo, aqueles que lhes parecessem melhor, eles examinariam a totalidade e acabariam preferindo os seus próprios costumes, tão convencidos estão de que estes são melhores do que todos os outros". (LARAIA, 2003)
Com as Grandes Navegações, iniciadas no século XVI, a Europa Ocidental entra em contato com os habitantes do "Novo Mundo", e essa descoberta da alteridade leva estes ocidentais a uma dupla resposta ideológica que traz, como pano de fundo, a dificuldade em enxergar a diversidade das sociedades. De um lado, estes habitantes são incorporados na figura do mau selvagem, base de sustentação da ideologia colonizadora e, por um outro lado, a partir da figura do bom selvagem de Rousseau, inicia-se a crítica da civilização e o elogio da "ingenuidade original". A repulsa se transforma em fascínio, mas os termos de atribuição e a estrutura permanecem os mesmos.
O importante é identificar no Renascimento a gênese da interrogação sobre a existência múltipla do homem, interrogação esta que sofrerá um processo de profunda reflexão apenas com o advento do século XIX. Com efeito, é neste século que se constitui verdadeiramente a antropologia enquanto disciplina autônoma: a ciência dassociedades primitivas em todas as suas dimensões.
Esta antropologia nasceu a partir de uma teoria que se empenhava em reforçar a concepção etnocêntrica dos critérios ocidentais como padrões para a natureza humana. Tal teoria, denominada evolucionismo, procurava afirmar a existência de uma espécie humana idêntica que, apesar de se desenvolver em ritmos desiguais, acabaria passando pelas mesmas etapas, para alcançar o nível final que é o da "civilização". Um dos pontos positivos do evolucionismo encontra-se no fato de ter mostrado que as diferenças culturais entre os grupos humanos não eram conseqüência de predisposições congênitas ou climáticas, como pregavam os adeptos do determinismo biológico ou geográfico, respectivamente. Neste ponto, torna-se interessante ressaltar o quanto estas teorias, sobretudo a do determinismo biológico estão presentes no imaginário popular.

"Tenho a física no meu sangue" – dizia uma aluna que pretendia mudar a sua opção de ciências sociais para a de física, invocando o nome de um ancestral. "Meu filho tem muito jeito para a música, pois herdou esta qualidade do seu avô". [Agindo dessa forma], Cesare Lombroso (1835-1909), criminalista italiano, (...) procurou correlacionar aparência física com tendência para comportamentos criminosos. (...) Teoria [que] encontrou grande receptividade popular e, até recentemente, era ministrada em alguns cursos de direito como verdade científica. (...). (LARAIA, 2003)

A principal reação ao evolucionismo se iniciou com Franz Boas (1858-1949). Um dos pais fundadores da etnografia, Boas desenvolveu o particularismo histórico, segundo o qual cada cultura segue os seus próprios caminhos em função dos diferentes eventos históricos que enfrentou.
Na primeira parte de seu livro, LARAIA expõe o desenvolvimento, na antropologia, do conceito de cultura a partir das manifestações iluministas até os autores modernos. Procurando traçar um antecedente histórico deste conceito, o autor cita o pensamento de Edward Tylor(1832-1917), primeiro a empreender tal formulação,

"Tomado em seu amplo sentido etnográfico é este [conceito de cultura] todo complexo que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes ou qualquer outra capacidade ou hábitos adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade". Com esta definição, Tylor (...) marca fortemente o caráter de aprendizado da cultura em oposição à idéia de aquisição inata, transmitida por mecanismos biológicos. (LARAIA, 2003)

A partir deste momento, prossegue o autor, as centenas de definições formuladas após Tylor serviram mais para estabelecer uma confusão do que ampliar os limites do conceito. A principal tarefa da antropologia moderna seria a de reconstrução, a partir de uma diversidade de fragmentos teóricos. Dentro deste contexto é que chegarmos ao ano de 1.973, quando GEERTZ escreveu que o tema mais importante da moderna teoria antropológica era o de diminuir a amplitude do conceito e transformá-lo num instrumento mais especializado e mais poderoso teoricamente.
Autor de uma vasta obra, este antropólogo norte-americano discorre sobre a prática etnográfica, com o objetivo de reduzir o conceito de cultura, tornando-o mais específico. Sobre a prática antropológica, esclarece a necessidade de não apenas captar fatos, mas esclarecer os mesmos, reduzindo-se a perplexidade ou, em outras palavras, familiarizando o exótico.

Aquilo que tomávamos por natural em nós mesmos é, de fato, cultural; aquilo que era evidente é infinitamente problemático. [Estranhamento é a] perplexidade provocada pelo encontro das culturas que são para nós as mais distantes, e cujo encontro vai levar a uma modificação doolhar que se tinha sobre si mesmo. (...) Aos poucos notamos que o menor de nossos comportamentos (...) não tem realmente nada de "natural". (...) O conhecimento (antropológico) da nossa cultura passa inevitavelmente pelo conhecimento das outras culturas; e devemos especialmente reconhecer que somos uma cultura possível entre tantas outras, mas não a única. (LAPLANTINE, 1988)

Um outro perigo na atividade antropológica seria o de querer capturar o mundo amplo (essência das sociedades nacionais, civilizações ou grandes religiões) no pequeno(cidades e aldeias "típicas"). Essas reflexões suscitam a interrogação sobre a atividade do etnógrafo. Para GEERTZ,
O que inscrevemos (...) [é] apenas àquela pequena parte do discurso social que os nossos informantes nos podem levar a compreender. (GEERTZ, 1989)

Admitindo a cultura como algo público, ressalta que a principal desordem teórica da antropologia contemporânea encontra-se em conceber a cultura como localizada na mente e no coração dos homens.
A cultura é pública porque o significado o é. Você não pode piscar (...) sem saber o que é considerado uma piscadela ou como contrair, fisicamente, suas pálpebras. (...) Mas tirar de tais verdades a conclusão de que saber piscar é piscar (...) é revelar uma confusão tão grande... (GEERTZ, 1989)

Um outro ponto trabalhado por Geertz diz respeito à diversidade cultural. Com efeito, uma das tarefas da antropologia que se forjou nos braços do iluminismo era a de "estabelecer uma escala de civilização", colocando as nações européias em um dos extremos da série e em outro as tribos selvagens, dispondo o resto da humanidade entre estes dois limites. Sobre este ponto, também LARAIA nos fala:
Predominava (...) a idéia de que a cultura desenvolveu-se de maneira uniforme, de tal forma que era de se esperar que cada sociedade percorresse as etapas que já tinham sido percorridas pelas "sociedades mais avançadas" (...) Etnocentrismo e ciência marchavam de mãos juntas. (LARAIA, 2003)

Mais uma vez o ponto em pauta é a teoria evolucionista, agora revelada em sua característica discriminatória, com nítida vantagem para as culturas européias. O autor reconhece que existe uma grande variação natural de formas culturais, reconhece que esta variação é o grande recurso da antropologia, mas que este recurso não é devidamente utilizado e, finalmente, lança a questão sobre de que maneira tal variação pode enquadrar-se com a unidade biológica da espécie humana.
No segundo capítulo de seu livro, Geertz tenta esclarecer a natureza humana, tomando como ponto de partida a perspectiva iluminista, ilusória, de uma natureza humana constante. A antropologia moderna, por sua vez, traz a firme convicção de que não existem de fato homens não modificados pelos costumes de lugares particulares, nunca existiram e não o poderiam pela própria natureza do caso.
O autor afirma que as reformulações do conceito da cultura e do papel da cultura na vida humana produzem uma definição de homem. A perspectiva tradicional acredita que o ser físico do homem evoluiu até seu limite máximo e que, a partir deste momento, iniciou-se o desenvolvimento cultural. Dentro desta perspectiva, o homem teria se tornado homem quando foi capaz de transmitir "conhecimento, crença, lei, moral, costume" a seus descendentes e seus vizinhos através do aprendizado. Contrapondo-se a esta idéia, Geertz afirma que a cultura foi um ingrediente, essencial, na produção desse mesmo animal, em vez de ser acrescentada a um animal acabado.

Grosso modo, isso sugere não existir o que chamamos de natureza humana independente da cultura. Os homens sem cultura (...) seriam monstruosidades incontroláveis com muito poucos instintos úteis, menos sentimentos reconhecíveis e nenhum intelecto. (...) Como nosso sistema nervoso central [cérebro] cresceu, em sua maior parte, em interação com a cultura, ele é incapaz de dirigir nosso comportamento ou organizar nossa experiência sem a orientação fornecida pelos sistemas de símbolos significantes. Sem os homens certamente não haveria cultura, mas, de forma semelhante e muito significativamente, sem cultura não haveria homens. (GEERTZ, 1989)

A fronteira entre o que é controlado de forma inata e o que é controlado culturalmente no comportamento humano é extremamente mal-definida e vacilante. O homem não pode ser definido nem apenas por suas habilidades inatas, como fazia o iluminismo, nem apenas por seu comportamento real, como o faz grande parte da ciência social contemporânea, mas sim pelo elo entre eles, pela forma em que o primeiro é transformado pelo segundo.
O ensaio "O Crescimento da Cultura e a Evolução da Mente", coloca os principais argumentos de Geertz contrários a interpretação fechada da cultura e da mente humana. O texto é dividido em quatro seções, nas quais se descreve a maneira como a mente foi tratada pela ciência cognitiva, antes de 1963, enquanto se ataca a posição falaciosa da antropologia etnocêntrica. Em seguida, um ponto de vista gradualista da evolução natural humana (teoria da unidade psíquica da humanidade) é defendido contra a tendência a favor de uma mudança abrupta dos estágios biológicos para os sócio-culturais (teoria do "ponto crítico"). Na terceira parte, os limites da explicação neurofisiológica são apontados e o controle cultural sobre a atividade mental é esboçado, para, finalmente, concluir pela existência de uma estrutura simbólica pública capaz de explicar adequadamente o desenvolvimento cultural e a evolução mental.

A tese que mantém a evolução mental e a acumulação cultural como dois processos inteiramente separados, estando o primeiro basicamente completo antes que se iniciasse o segundo, é incorreta em si mesma. (GEERTZ, 1989)

Os debates indicam não ser aconselhável a forma padronizada de tratar em série os parâmetros biológico, social e cultural – sendo o primeiro tomado como anterior ao segundo, e o segundo anterior ao terceiro. Esses níveis devem ser vistos como inter-relacionados reciprocamente e considerados em conjunto.
Ao definir cultura, GEERTZ a relata como sistema ordenado de significado e símbolos, nos termos dos quais os indivíduos definem seu mundo, expressam seus sentimentos e fazem seus julgamentos. Não apenas as idéias, mas as próprias emoções são, no homem, artefatos culturais. Na segunda parte de seu livro, LARAIA mostra, de uma maneira mais prática, como a cultura influencia o comportamento social e diversifica enormemente a humanidade, apesar de sua comprovada unidade biológica. Condicionando a visão do homem, a cultura leva-o, por exemplo, a reagir de maneira negativa com aqueles que fogem aos padrões de comportamentos aceitos pela maioria da comunidade.

O fato de o homem vê o mundo através de sua cultura tem como conseqüência a propensão em considerar o seu modo de vida como o mais correto e o mais natural. (...) Tais crenças contêm o germe do racismo, da intolerância, e, freqüentemente, são utilizadas para justificar a violência praticada contra os outros. (LARAIA, 2003)

Este costume de discriminar os que são diferentes, porque pertencem a outro grupo, pode ser encontrado mesmo dentro de uma sociedade. Além disso, a cultura pode ainda condicionar aspectos biológicos e até mesmo decidir sobre a vida e a morte dos membros do sistema. Determinadas doenças psicossomáticas são fortemente influenciadas pelos padrões culturais.
Um outro ponto relevante de discussão refere-se ao fato de que nem todos os indivíduos participam de maneira homogênea de sua cultura. Sendo sua participação limitada; não existe a possibilidade de um indivíduo dominar todos os aspectos de sua cultura. O importante, porém, é que exista um mínimo de participação e de conhecimento por parte de determinado indivíduo do processe cultural do qual ele faz parte, e que este conhecimento mínimo seja partilhado por todos os componentes da sociedade de forma a permitir a convivência dos mesmos.
Cada sistema cultural está sempre em mudança. Ter esta compreensão é importante para atenuar o choque entre as gerações e evitar comportamentos preconceituosos. Da mesma forma que é fundamental para a humanidade a compreensão das diferenças entre povos de culturas diferentes, é necessário saber entender as diferenças que ocorrem dentro do mesmo sistema. Este é o único procedimento que prepara o homem para enfrentar serenamente este constante e admirável mundo novo do porvir.
A discussão não terminou – continua ainda –, e provavelmente nunca terminará, pois uma compreensão exata do conceito de cultura significa a compreensão da própria natureza humana, tema perene da incansável reflexão humana.



Laplantine, Laraia e Geertz - Antropologia e Cultura. Disponível em: <http://analgesi.co.cc/html/t11867.html>. Acesso em: 06 Mai. 2011

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